A vida de um homem
normal
Uma noite, voltando de metrô para casa, como fazia cinco vezes por
semana, onze meses por ano, ele ouviu uma voz. Estava exausto, com o nó da gravata frouxo no
pescoço, o colarinho desabotoado, a cabeça jogada para trás, o walkman a todo o volume e os fones
enterrados nos ouvidos. De repente, antes mesmo de poder perceber a interrupção, a música que
vinha ouvindo cessou sem explicações e, ao cabo de um breve silêncio, no lugar dela surgiu uma voz
que ele não sabia nem como, nem de quem, nem de onde. Ergueu a cabeça. Olhou para os lados,
para os outros passageiros. Mas era só ele que a ouvia. Falava aos seus ouvidos. Recompôs-se. A voz
lhe disse umas tantas coisas, que ele ouviu com atenção, que era justamente o que ela pedia. Poderia
ter cutucado o vizinho de banco. Poderia ter saído do metrô e corrido até em casa para anunciar o fato
extraordinário que acabara de acontecer. Poderia ter sido tomado por louco e internado num hospício.
Poderia ter passado o resto da vida sob o efeito de tranquilizantes. Poderia ter perdido o emprego e os
amigos. Poderia ter vivido à margem, isolado, abandonado pela família, tentando convencer o mundo
do que a voz lhe dissera. Poderia não ter tido os filhos e os netos que acabou tendo. Poderia ter
fundado uma seita. Poderia ter feito uma guerra. Poderia ter arregimentado seus seguidores entre os
mais simples, os mais fracos e os mais idiotas. Poderia ter sido perseguido. Poderia ter sido preso.
Poderia ter sido assassinado, crucificado, martirizado. Poderia vir a ser lembrado séculos depois, como
líder, profeta ou fanático. Tudo por causa da voz. Mas entre os mandamentos que ela lhe anunciou
naquela primeira noite em que voltava de metrô para casa, e que lhe repetiu ao longo de mais
cinquenta e tantos anos em que voltou de metrô para casa, o mais peculiar foi que não a mencionasse
a ninguém, em hipótese alguma. E, como ele a ouvia com atenção, ao longo desses cinquenta e
tantos anos nunca disse nada a ninguém, nem à própria mulher quando chegou em casa da primeira
vez, muito menos aos filhos quando chegaram à idade de saber as verdades do mundo. Acatou o que
lhe dizia a voz. Continuou a ouvi-la todos os dias, sempre com atenção, mas para os outros era como
se nunca a tivesse ouvido, que era o que ela lhe pedia. Morreu cinquenta e tantos anos depois de tê-la
ouvido pela primeira vez, sem que ninguém nunca tenha sabido que a ouvia, e foi enterrado pelos filhos
e netos, que choraram em torno do túmulo a morte de um homem normal. CARVALHO, Bernardo. A
vida de um homem normal. In: Boa companhia: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.
11-12.